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# Indico – Literatura

08/05/2012

Eita que isso aqui tá cheio de poeira!!!! A vida tá corrida e ando um pouco sem tempo pra postar aqui (e nem consigo mais pesquisar minhas tattos queridas que tanto vocês gostam de ver…só pra constar, nem o último #minhaestante foi pro ar. absurdo gente! absurdo! coitado do Tiago Guillen) mas como quem é vivo sempre aparece, eu estou aqui!

Tava organizando uns papéis meus e descobri umas antigas anotações que eu achava que estavam perdidas. Eram umas frases copiadas de livros que li, não de todos, mas de alguns que tinham algo a dizer. rs! E fui imediatamente colocá-las no meu caderninho de frases. Sim, eu tenho um, comecei a copiar coisas de livros/ filmes que achava interessante aos 17 anos, mas passei um bom tempo sem fazê-lo, mas há uns anos tenho retomado o hábito. Só pra homenagear e deixar registrado, foi um hábito que adquiri com uma professora de redação, Rosário Sá Barreto, devo muito à essa mulher. Com ela eu aprendi a pensar, simplesmente isso!

Eu e meu caderno. Não, não é um moleskine. Comprei só pela estampa mesmo e não por ser uma imitação de um.

Quando fui passar as frases das folhas antigas no caderno, tornei a lê-lo e revi anotações minhas de um livro maravilhoso (do qual eu já queria ter falado aqui há muito tempo) chamado Fahrenheit 451, escrito por Ray Bradbury. Talvez muitos já tenham visto o filme, de mesmo nome, do Truffaut (eu não vi ainda, toda vez eu pego pra ver, mas nunca assisto!).

Não sou muito de ler ficção científica, mas desde que li Admirável Mundo Novo (se é que se pode resumir esse livro a um gênero), que leio livros parecidos. 1984 (George Orwell), Não verás país nenhum (Ignácio Loyola de Brandão), Fahrenheit 451

Fahrenheit 451 foi escrito em 1953 e descreve um governo totalitário, num futuro incerto mas próximo, que proíbe qualquer livro ou tipo de leitura. Tudo é controlado e as pessoas só têm conhecimento dos fatos por aparelhos de TVs instaladas em suas casas ou em praças ao ar livre. Os bombeiros tem como atividade queimar os livros que são encontrados. Até que um dia, um dos bombeiros, Montag, conhece uma menina e começa a questionar sua profissão e a sociedade. E o resto… é melhor você ler! =]

Poderia falar muitas coisas sobre esse livro, mas já são 2h30 da madruga e eu não quero fazer mais spoiled do que os que já farei. Então só pra aguçar a curiosidade dá uma lidinha nesses trechos que eu coloco logo abaixo (são os que estão no meu caderninho ; )

Ah, e como pode ser ruim um livro que fala sobre livros?  E o melhor é que a única edição brasileira vendida atualmente é uma versão de bolso, ou seja, baratinha, baratinha. É muito amor! =]

‘Deve haver alguma coisa nos livros, coisas que não podemos imaginar, para levar uma mulher a ficar numa casa em chamas; tem que haver alguma coisa. Ninguém se mata a troco de nada’

‘Deixar você em paz! Tudo bem, mas como eu posso ficar em paz? Não precisamos que nos deixem em paz. Precisamos realmente ser incomodados de vez em quando. Quanto tempo faz que você não é realmente incomodada? Por alguma coisa importante, por alguma coisa real?’

‘Todos devemos ser iguais. Nem todos nasceram livres e iguais, como diz a Constituição, mas todos se fizeram iguais. Cada homem é a imagem de seu semelhante e, com isso, todos ficam contentes, pois não há nenhuma montanha que os diminu, contra a qual se avaliar. Isso mesmo! Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma. Façamos uma brecha no espírito do homem. Quem sabe quem poderia ser alvo do homem lido?’

‘Você precisa entender que nossa civilização é tão vasta que não podemos permitir que nossas minorias sejam transtornadas e agitadas’

‘Será porque estamos nos divertindo tanto em casa que nos esquecemos do mundo? Será porque somos tão ricos e o resto do mundo tão pobre e simplesmente não damos a mínima para sua pobreza? Tenho ouvido rumores; o mundo está passando fome, mas nós estamos bem alimentados. Será verdade que o mundo trabalha duro enquanto nós brincamos? Será por isso que somos tão odiados?’

‘Eu não falo de coisas, senhor. Falo do sentido das coisas. Sento-me aqui e sei que estou vivo’

‘Os livros servem para nos lembrar quanto somos estúpidos e tolos. São o guarda pretoriano de César, cochichando enquanto o desfile ruge pela avenida: – Lembre-se, César, tu és mortal. A maioria de nós não pode sair correndo por aí, falar com todo mundo, conhecer todas as cidades do mundo, não temos tempo, dinheiro ou tantos amigos assim. As coisas que você está procurando, Montag, estão no mundo, mas a única possibilidade que o sujeito comum terá de ver noventa e nove por cento delas está num livro’

‘Se você esconder sua ignorância, ninguém lhe baterá e você nunca irá aprender’

‘Tudo está bem quando tudo acaba bem’

Diga aí, se não vale a leitura?! Tão antigo e tão atual. Indico!

ps: acabei de ver que esse livro tá esgotado! =O então vai na biblioteca, pede emprestado, vai em sebo, troca com alguém, mas não deixa de ler hein?! de qualquer forma daqui a pouco ele volta a ser editado, tenho certeza! ; )

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# minha estante – por Geraldo Fraga

07/04/2011

Geraldo Fraga é jornalista, mas não foi a partir de seu ofício que o conheci. Mais um cliente super assíduo (gente, quando eu falo cliente assim parece até outra coisa né?! vixe!) da livraria em que eu trabalhava. Viciado em HQ e filmes, era só chegar perto dele e de Maurinho pra ter certeza que eles estavam falando desses assuntos, e falavam viu!?  Devo ter conhecido ele pela minha tattoo de Mafalda ou porque toda vez que eu chegava nos dvd’s ou na revistaria tava lá o danado. E como gente boa atrai gente boa (que propaganda da minha pessoa. mas eu sou gente boa, digo logo e Gera também) conheci Geraldo.

Logo o convidei a participar do # minha estante, e sinceramente achei o máximo quando recebi suas fotos. A estante do danado é uma bagunça organizada (falei organizada pra diminuir minha culpa de estar chamando a estante dos outros de bagunça). Ele com certeza se acha por alí, mas a gente não consegue ver os títulos dos livros que ele tem. Acho que isso foi uma estratégia pra ninguém pegar nenhum livro emprestado. Não dá pra identificar quase nada. Só um livro de Saramago mais a vista no canto direito da foto, no mais a gente tem que acreditar no que ele fala. O que eu achei massa quando recebi o email de Geraldo é que a gente pode ver qualquer tipo de estante, e a pessoa não é menos leitora por isso. Afinal, de que adianta uma estante toda arrumadinha se os livros não chegam nem a ser usados? Melhor uma bagunçada em que os livros desempenham o seu papel de fato.

 

# minha estante – por Geraldo Fraga

É nessa zona aí que eu guardo meus únicos tesouros. Como diz aquela canção do Planet Hemp: Tudo que eu tenho são meus livros e discos. A maioria dos exemplares é de histórias em quadrinhos, estilo literário que mais me inspira. Temos desde os clássicos do terror, Sandman, Preacher, Hellblazer e Heavy Metal; até coisas mais singelas e fofas como a coleção quase completa de Calvin e Haroldo.

Colecionar quadrinhos é um vício desgraçado. Só quem curte consegue entender a fixação que os fãs têm por seus artistas preferidos.

Inclusive a maioria dos meus livros, de literatura propriamente dita, são de Neil Gaiman, famosos autor de quadrinhos. Deuses Americanos, primeiro romance dele, e esgotado nas livrarias, pode ser considerado o Santo Graal da minha coleção. Junto, é claro, com A Voz do Fogo de Alan Moore, um dos melhores livros de literatura fantástica já escritos.


Tem também um monte de fantasia, como a trilogia do Senhor dos Anéis e o exemplar com a coleção completa das Crônicas de Nárnia. Terror tem de bóia com Stephen King e Anne Rice, que são clichês, mas são bons. Ainda tem um espaço para Charles Dickens, Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft. Na rabeira, ali no canto inferior direito, tem Caim de José Saramago, que foi minha última aquisição e que ainda está em fase de leitura.

ps: a maioria dos livros fica dentro de sacos e embalagens porque tenho um pequeno problema com poeira em meu quarto.


Geraldo Fraga é jornalista, autor do livro Histórias que nos Sangram (que eu ainda não li) e do blog Infernorama.

continuando…

21/08/2010

…quase esqueço que o post passado era pra ter mais uma coisinha e que pra não ficar maior do que já estava eu resolvi dividir. Então vai a outra parte aqui…

Vocês já sabem que eu sou louca por Jorge Drexler né?! Acho que à essa altura do campeonato dá pra saber, se não sabe dá pra ver nesse texto  aqui.

O mais novo albúm do Jorgito é o ‘Amar la trama‘, repleto de músicas lindas apaixonadas e apaixonantes. Confesso que não sei decidir qual o melhor albúm de sua carreira, fico na dúvida entre o ’12 segundos de oscuridad’ e este.

O ’12 segundos de oscuridad‘ é belíssimo, mas é feito pra chorar, refletir, pra pensar no que passou e no que deveria ter sido feito. E cá entre nós, quem gosta de pensar no que você poderia ter feito? Por mais que se aprenda com as diferentes escolhas, com os erros e arrependimentos, ninguém gosta de pensar que a outra opção poderia ter sido melhor. Ou melhor, como seria a outra opção. Ah, o velho modo condicional…

Seja pela melodia, letra ou a forma com que Drexler canta essas músicas, canções como ’12 segundos de oscuridad’, ‘La vida es más compleja de lo que parece’, ‘Hermana Duda’, ‘Soledad’, ‘Sanar’ (essa até traz um pouquinho de esperança e sensação de que toda essa angústia vai passar) e ainda por cima uma linda versão de ‘High and Dry’ do Radiohead, trazem muita melancolia e muito choro para nossa alma.

obs: não lembro exatamente como conheci Drexler. Não sei dizer se foi com a música ganhadora do Oscar de Melhor Canção Original em 2005 (Al otro lado del río – Diários de Motocicleta), se foi com um dos meus professores de espanhol, ou se foi na época em que trabalhava na cultura e encontrei esse lindo cd, mas sei que quando escutei o cd todo pensei “esse cara tem sangue de brasileiro, ou ele é louco por esse país”, pois  no ’12 segundos…’ tem uma versão da música Disneylandia de Titãs, participação de Paulinho Moska em Quienquera que seas e Maria Rita em Soledad. E um dia conversando com Bella Valle sobre o grandioso e tendo feito essa observação, ela me disse que ele amava a música do Brasil, que ele falou isso pra ela. HUM?!?!?!!? Isso!! Ela foi à um show dele quando morava na Espanha e teve a oportunidade de conversar com ele, e muito, segundo ela. E ele ainda cantou, no show, uma música de Chico Buarque. É, eu sei, inveja é uma merda mesmo… Falei tudo isso só pra constar que eu sinto inveja dessa desvairada.

Nunca tinha pensando nesse disco de forma tão dramática até escutar o ‘Amar la Trama‘. Antes o ’12 segundos…’ era ótimo, lindo, reflexivo e até alegre. Mas agora ele é deprimente, continua lindo e reflexivo, mas deprimente. O ‘Amar la Trama’ é cheio de vida, e isso dá pra perceber até na qualidade da gravação (gente, não sou crítica de música e nem pretendo ser, são apenas percepções minhas como admiradora de seu trabalho). Sentia a diferença do som, mas só depois vendo uns vídeos do cd novo verifiquei que a qualidade de som era a mesma do cd. Tudo, os altos e baixos dos instrumentos, os solos, tudo exatamente igual, e percebi que a gravação do cd foi feita ali mesmo, como uma apresentação (especialistas em música, me perdõem se estou falando besteira).

Transformando un plató de televisión en un estudio y, durante cuatro días, grabar en vivo las nuevas canciones en él incluidas, con todos los músicos tocando en directo y ante una veintena de espectadores por jornada”. E confirmei! (Por sinal, dessas gravações surgiu um dvd que até onde sei não vende aqui – La Trama Circular – e se alguém quiser me presentear, eu aceito!)

As músicas são vibrantes, dão paz mas transmitem vida. Tenho a sensação que ele deve estar num momento muito bom de sua vida e carreira pra poder ter feito um albúm como esse. Ao contrário do ’12 segundos de oscuridad’ no qual eu consigo escutar os lamentos e os pensamentos do que poderia ter acontecido, nesse albúm só se ouve a celebração da vida e a vontade de ultrapassar cada problema que ela venha a trazer, e no melhor estilo “pode vim quente que eu estou fervendo”, ou melhor, com a leveza de achar que “todo puede ser tan peligrosamente leve, como la nieve en una bola de nieve” mesmo quando se fala de algo que está faltando. E esse ‘easy way of life’ fica muito claro na faixa ‘I don’t worry about a thing’ (que é uma versão, mas desconheço o original).

Don’t waste your time trying to be a go-getter

Things will get worse before they get any better

I used to be troubled

I know you are

But I finally I found the light

Well, that’s right

Now, I don’t worry about a thing ‘cause nothing’s gonna be alright

Pessimismo? Não creio, é só uma maneira de viver a vida mais leve e sem cobranças.

Sugiro escutar esse cd com um bom fone de ouvido para perceber o som de cada instrumento e cada palavra que ele canta (mesmo pra quem não sabe falar espanhol as palavras são cantadas claramente). Toda vez que o escuto percebo novos sons que não tinha “escutado” antes. Ah, e tem metais. Ah! os metais (Cake, Los Hermanos, adoro metais)!

Mas tudo isso que eu escrevi foi pra falar de uma música específica deste disco: Noctiluca. Essa música transborda amor, paz, tranquilidade e leveza. Logo que a escutei, devido à letra, pensei que ele tivesse feito pra algum filho, mas fiquei encucada pois não conhecia a palavra Noctiluca. Fui imediatamente no meu lindo dicionário vermelho, Sueña, verificar esta palavra mas não a encontrei, e apesar de imaginar algo relacionado ao mar não sabia exatamente o que significava. O tempo passou e eu esqueci de procurar seu significado, e  somente quando estava a ler “As Mulheres do meu Pai” é que lembrei dessa bendita palavrinha nessa música que eu tanto adoro.

“Despi-me e entrei no mar – a água era lisa e tépida – com a sensação de que mergulhava na própria noite. No século XIII escrevia-se noyte. Digamos então que eu me senti mergulhar na noyte, sugado pelo seu vórtice escuro, e que fechei os olhos e quando os reabri vi as estrelas a girar ao meu redor. Movia os braços e cada movimento parecia gerar um tumulto de estrelas. Conheço pessoas que passaram por esta experiência e entraram em pânico. Outras, em êxtase. Muitas falam em embriaguez, a maioria em sonho. O fenómeno é provocado por um pequeno organismo unicelular, a noctiluca, capaz de emitir luminescência, e chama-se ardência marítima, ou no sul de Portugal, agualusa.”

Por que ninguém me disse antes que a porcaria da noctiluca era a bendita da água-viva?? De qualquer forma coloco aqui sua definição biológica

Noctiluca é um protista unicelular dinoflagelado, pertencente à classe Noctiluciphyceae, ordem Noctilucales. Possuem 2 flagelos: um no sulco, outro no cíngulo. A célula é vesiculosa, frequentemente vacuolizada. Tanto os flagelos com os sulcos são rudimentares. Apresentam um tentáculo móvel que usam para capturar as presas. Em algumas ocasiões é simbionte com algas.

e o vídeo da belíssima canção que gerou esse texto enorme. No vídeo ele fala que escreveu essa música para o seu filho mais novo (yeah! caçulas rules!) e ele explica o que danado é noctiluca.


Indico – literatura

21/08/2010

Ontem eu terminei de ler “As Mulheres do Meu Pai” do angolano José Eduardo Agualusa (que Anna Rakhael me emprestou, e por sinal estou doida pra ler seu projeto monográfico da especialização, que é sobre “O vendedor de passados” livro deste mesmo autor) e fazia tempo que eu não lia um livro com tanto prazer como li este último.

“As Mulheres do Meu Pai” é um romance que relata a viagem de quatro personagens pelo continente africano em busca de reconstruir a história de vida do famoso compositor angolano Faustino Manso que, ao morrer, deixou 7 viúvas e 18 filhos. A caçula, Laurentina, a partir desta viagem e da realização do documentário sobre o músico, acaba se descobrindo neste continente e na vida das pessoas que ela vai conhecendo pelo caminho.

O livro é um prato cheio para referências culturais africanas que vai desde o carnaval da Cidade do Cabo às características e posições geográficas deste continente. (O Carnaval da Cidade do Cabo, especificamente, me chamou atenção devido à seguinte descrição: “… as diferentes trupes carregam guarda-sóis coloridos enquanto avançam, cantando, dançando e atrapalhando o trânsito, pelas ruas da cidade. A mim fez-me lembrar o Carnaval de Olinda, com as suas orquestras de frevo, sombrinhas e passos acrobáticos…”), e fiquei curiosíssima para conhecer (vou pedir pra minha amiga @manudonato ir lá verificar em sua próxima viagem à África).

É um livro para ser lido com papel e caneta do lado, anotando as referências musicais e literárias, além de trechos e passagens simples e bonitas que nos levam à reflexão ou somente à emoção.

Mas mesmo sendo um livro leve eu não recomendo lê-lo se você estiver num período “vou ali e já volto”. É necessário bastante atenção para acompanhá-lo, pois a maneira como ele é escrito e a quantidade de personagens podem deixar o leitor um tanto perdido caso ele esteja distraído.  Eu mesma passei alguns dias (15 pra ser mais exata) sem nem tocar no danado e quando retomei a leitura não lembrava de onde havia surgido uns nomes, mas decidi ler assim mesmo. Toda vez que chegava em uma parte (é porque o livro é bem dividido. São vários capítulos – creio que assim posso chamá-los – divididos em 4 andamentos, como chama o autor. E cada capítulo é contado por um determinado personagem, mas o interessante é que o personagem não assina, de forma que você mesmo deduz, a partir do que está sendo relatado, quem está contando a história) que envolvia essas personagens eu lia pensando “o que é que eles estão fazendo aqui?”.  Displicente? É, eu sei…mas era como se fosse uma história a parte, então não comprometeu o resultado.

De qualquer forma é um livro para ser lido mais de uma vez, não porque ele seja difícil porque ele não o é,  e sim porque é prazeroso, engraçado, pertinente, feliz (que traz felicidade e não que seja alegre) e simples.

Indico.

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Alguns trechos que me fizeram sorrir, pensar, amar ou chorar. Não necessariamente nessa ordem.

“Uma vez alguém perguntou ao escritor e jornalista polaco Ryszard Kapuscinski o que mais o impressionou em África. Kapuscinski, não hesitou: ‘A luz!’ É isto: onde uns vêem luz outros apenas distinguem sombras. Os que vêem sombras constroem muros para se protegerem. Tendem a ser fanáticos construtores de muros”

“Sou um tipo que se apaixona com facilidade. Também desanimo, verdade seja dita, com idêntica facilidade. Volúvel, acusa minha mãe. Talvez. O que me atrai numa mulher é o que não sei sobre ela. Algumas mulheres usam o silêncio como quem veste uma burqa. Um homem fica a imaginar o que existe por detrás daquele silêncio pesado e escuro sem frestas, que mal deixa adivinhar a forma do pensamento. Imaginar já é amar. Há, depois, as mulheres que falam, mas com uma voz de tal forma sedutora, levemente rouca e ao mesmo tempo luminosa, que é como se falassem, pois nós, os homens, apenas conseguimos reparar na voz, e não naquilo que elas dizem. “Como podes apaixonar-te por alguém que não conheces?!”, aborrece-se a minha mãe. Precisamente, digo-lhe, ninguém se apaixona por um conhecido. O que eu acho, aliás, é que a paixão termina no momento em que se conhece o outro. Creio que era Nelson Rodrigues que dizia que se todos conhecessem a intimidade uns dos outros ninguém cumprimentaria ninguém. Evidentemente, existem depois aquelas mulheres que nos seduzem pelo brilho do pensamento. Ainda neste caso chega o momento em que viramos a última página. Reler um clássico pode ser um exercício agradável, sem dúvida, mas descobrir um jovem autor suscita outra emoção. As mulheres que pensam são as mais perigosas (espero que este meu diário não caia nunca nas mãos de uma mulher).

“Gosto daqueles lugares onde não se passa nada. Evidentemente, gosto deles enquanto passo, passo a passo, num passeio lento, ou sobre rodas, num rápido deslizar. Gosto do silêncio estático, da luz parada, nos vários tons da ferrugem – uma velha fotografia manchada de lágrimas”.

“Um dos principais requisitos para ser um bom comandante de avião é a voz. Quando o avião decola, naquele momento em que tudo estremece e range, não há nada mais tranqüilizador do que escutar a frase “Boa noite senhores passageiros, fala-vos o vosso comandante”, pronunciada por uma voz firme, absolutamente segura, e ao mesmo tempo calorosa. Imaginem uma comandante de avião com a voz de Woody Allen. Vocês sentir-se-iam seguras (dirijo-me especialmente às leitoras)? Eu sou mulher, exijo um comandante com voz de comandante”.

….

– Ouça, nem sei se posso acreditar no que ele me contou. Disse-me …

– Eu sei o que ele te disse…

– Bem, também me disse que não tem com a verdade compromisso algum.

– Faz ele muito bem. A verdade é uma velha senhora chata, estúpida e inconveniente. Além de surda, surda não como as portas, que as há bastante atentas, e olha que não são poucas, mas como Deus, a quem todos suplicam e que não ouve ninguém. Procuras a verdade, tu?

– Acho que sim.

– E de que te serve conhecer a verdade?

– Não é uma questão de serventia. De que me serve a beleza das estrelas, por exemplo? Alegra-me a alma. Acho que a verdade tem alguma coisa a ver com a beleza.

– Não concordo contigo, filha. Há verdades muito feias. Algumas só trazem dor.

– Sim, há verdades que magoam. Mas talvez a dor seja necessária…

– Tu não acreditas nisso!

– Tem razão, a dor é inútil. Podemos passar muito bem sem ela.

“Amo-te muito, amo-te sem esperança, e sem promessas, que é o amor mais puro e mais autêntico que o coração de um homem pode experimentar”.