Indico – literatura

Ontem eu terminei de ler “As Mulheres do Meu Pai” do angolano José Eduardo Agualusa (que Anna Rakhael me emprestou, e por sinal estou doida pra ler seu projeto monográfico da especialização, que é sobre “O vendedor de passados” livro deste mesmo autor) e fazia tempo que eu não lia um livro com tanto prazer como li este último.

“As Mulheres do Meu Pai” é um romance que relata a viagem de quatro personagens pelo continente africano em busca de reconstruir a história de vida do famoso compositor angolano Faustino Manso que, ao morrer, deixou 7 viúvas e 18 filhos. A caçula, Laurentina, a partir desta viagem e da realização do documentário sobre o músico, acaba se descobrindo neste continente e na vida das pessoas que ela vai conhecendo pelo caminho.

O livro é um prato cheio para referências culturais africanas que vai desde o carnaval da Cidade do Cabo às características e posições geográficas deste continente. (O Carnaval da Cidade do Cabo, especificamente, me chamou atenção devido à seguinte descrição: “… as diferentes trupes carregam guarda-sóis coloridos enquanto avançam, cantando, dançando e atrapalhando o trânsito, pelas ruas da cidade. A mim fez-me lembrar o Carnaval de Olinda, com as suas orquestras de frevo, sombrinhas e passos acrobáticos…”), e fiquei curiosíssima para conhecer (vou pedir pra minha amiga @manudonato ir lá verificar em sua próxima viagem à África).

É um livro para ser lido com papel e caneta do lado, anotando as referências musicais e literárias, além de trechos e passagens simples e bonitas que nos levam à reflexão ou somente à emoção.

Mas mesmo sendo um livro leve eu não recomendo lê-lo se você estiver num período “vou ali e já volto”. É necessário bastante atenção para acompanhá-lo, pois a maneira como ele é escrito e a quantidade de personagens podem deixar o leitor um tanto perdido caso ele esteja distraído.  Eu mesma passei alguns dias (15 pra ser mais exata) sem nem tocar no danado e quando retomei a leitura não lembrava de onde havia surgido uns nomes, mas decidi ler assim mesmo. Toda vez que chegava em uma parte (é porque o livro é bem dividido. São vários capítulos – creio que assim posso chamá-los – divididos em 4 andamentos, como chama o autor. E cada capítulo é contado por um determinado personagem, mas o interessante é que o personagem não assina, de forma que você mesmo deduz, a partir do que está sendo relatado, quem está contando a história) que envolvia essas personagens eu lia pensando “o que é que eles estão fazendo aqui?”.  Displicente? É, eu sei…mas era como se fosse uma história a parte, então não comprometeu o resultado.

De qualquer forma é um livro para ser lido mais de uma vez, não porque ele seja difícil porque ele não o é,  e sim porque é prazeroso, engraçado, pertinente, feliz (que traz felicidade e não que seja alegre) e simples.

Indico.

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Alguns trechos que me fizeram sorrir, pensar, amar ou chorar. Não necessariamente nessa ordem.

“Uma vez alguém perguntou ao escritor e jornalista polaco Ryszard Kapuscinski o que mais o impressionou em África. Kapuscinski, não hesitou: ‘A luz!’ É isto: onde uns vêem luz outros apenas distinguem sombras. Os que vêem sombras constroem muros para se protegerem. Tendem a ser fanáticos construtores de muros”

“Sou um tipo que se apaixona com facilidade. Também desanimo, verdade seja dita, com idêntica facilidade. Volúvel, acusa minha mãe. Talvez. O que me atrai numa mulher é o que não sei sobre ela. Algumas mulheres usam o silêncio como quem veste uma burqa. Um homem fica a imaginar o que existe por detrás daquele silêncio pesado e escuro sem frestas, que mal deixa adivinhar a forma do pensamento. Imaginar já é amar. Há, depois, as mulheres que falam, mas com uma voz de tal forma sedutora, levemente rouca e ao mesmo tempo luminosa, que é como se falassem, pois nós, os homens, apenas conseguimos reparar na voz, e não naquilo que elas dizem. “Como podes apaixonar-te por alguém que não conheces?!”, aborrece-se a minha mãe. Precisamente, digo-lhe, ninguém se apaixona por um conhecido. O que eu acho, aliás, é que a paixão termina no momento em que se conhece o outro. Creio que era Nelson Rodrigues que dizia que se todos conhecessem a intimidade uns dos outros ninguém cumprimentaria ninguém. Evidentemente, existem depois aquelas mulheres que nos seduzem pelo brilho do pensamento. Ainda neste caso chega o momento em que viramos a última página. Reler um clássico pode ser um exercício agradável, sem dúvida, mas descobrir um jovem autor suscita outra emoção. As mulheres que pensam são as mais perigosas (espero que este meu diário não caia nunca nas mãos de uma mulher).

“Gosto daqueles lugares onde não se passa nada. Evidentemente, gosto deles enquanto passo, passo a passo, num passeio lento, ou sobre rodas, num rápido deslizar. Gosto do silêncio estático, da luz parada, nos vários tons da ferrugem – uma velha fotografia manchada de lágrimas”.

“Um dos principais requisitos para ser um bom comandante de avião é a voz. Quando o avião decola, naquele momento em que tudo estremece e range, não há nada mais tranqüilizador do que escutar a frase “Boa noite senhores passageiros, fala-vos o vosso comandante”, pronunciada por uma voz firme, absolutamente segura, e ao mesmo tempo calorosa. Imaginem uma comandante de avião com a voz de Woody Allen. Vocês sentir-se-iam seguras (dirijo-me especialmente às leitoras)? Eu sou mulher, exijo um comandante com voz de comandante”.

….

– Ouça, nem sei se posso acreditar no que ele me contou. Disse-me …

– Eu sei o que ele te disse…

– Bem, também me disse que não tem com a verdade compromisso algum.

– Faz ele muito bem. A verdade é uma velha senhora chata, estúpida e inconveniente. Além de surda, surda não como as portas, que as há bastante atentas, e olha que não são poucas, mas como Deus, a quem todos suplicam e que não ouve ninguém. Procuras a verdade, tu?

– Acho que sim.

– E de que te serve conhecer a verdade?

– Não é uma questão de serventia. De que me serve a beleza das estrelas, por exemplo? Alegra-me a alma. Acho que a verdade tem alguma coisa a ver com a beleza.

– Não concordo contigo, filha. Há verdades muito feias. Algumas só trazem dor.

– Sim, há verdades que magoam. Mas talvez a dor seja necessária…

– Tu não acreditas nisso!

– Tem razão, a dor é inútil. Podemos passar muito bem sem ela.

“Amo-te muito, amo-te sem esperança, e sem promessas, que é o amor mais puro e mais autêntico que o coração de um homem pode experimentar”.

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3 Respostas to “Indico – literatura”

  1. alemmaralemmim Says:

    Adoro essa brincadeira que ele faz com o narrador, nesse livro narradores. Essa coisa de varias vozes contarem a história são os narradores-personagens que ele tem mania de incluir. Na verdade, com isso ele aproxima a tradição oral, alguém que conta. Muito forte na literatura africana de língua portuguesa.

    Que bom que você gostou, sinto-me feliz por minha “tarefa” de conhecer/apresentar esse mundo lindo ter sido feita heheheheheheh
    tenho mais dois dele, te empresto na sequência hahahhahahhaha

  2. A hunter shoots a bear « De bubuia na bubuia Says:

    […] meu brother que mora em Brasília, disse que comprou pra namorada o livro que indiquei aqui no […]

  3. #minha estante 1 « de bubuia na bubuia Says:

    […] mais lindos que ja li) e já comecei a indicar um dos últimos que li e que escrevi sobre ele aqui “As mulheres do meu pai” José Eduardo Agualusa. Além do clássico “Admirável […]

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