Liberdade Clandestina

Semana passada ocorreu um fato interessante que me fez refletir (mais) sobre o nosso papel de cidadão. Um conhecido meu, alemão, estava no Brasil fazendo uma pesquisa e como fonte de estudo entrevistou alguns jovens brasileiros e eu fui uma das entrevistadas. Hábitos, medos, sonhos, e até “o que você faria se tivesse 10 milhões de reais” foram algumas das perguntas. Confesso que esta pergunta foi difícil responder, é muito além do que eu posso imaginar, ainda mais com o salário surreal (surreal mesmo, completamente fora dos meus sonhos) que eu ganho.

Durante a entrevista acabamos entrando no assunto corrupção e ele me perguntou qual medida eu tomava contra isso. A pergunta foi um tiro na minha consciência. Ouvi ecos no meu pensamento e me peguei respondendo: “Hum…nada”. Como assim eu não faço nada pra combater a corrupção? Ao mesmo tempo em que eu respondia me perguntava como isso poderia ser verdade.

Acho que falta mesmo iniciativa da sociedade civil em cobrar (e aí digo principalmente a classe média por motivos óbvios), se organizar para lutar contra diversos problemas sociais incluindo a corrupção. Mas como cobrar determinadas posturas se na primeira oportunidade que aparece de levar vantagem sobre o outro a gente acata? Afinal, “o mundo é dos espertos”.

Mudando de pau pra jangada, mas ainda assim falando sobre a questão da cidadania, costumo reclamar com pessoas que jogam lixo na rua. Fico impressionada com as criaturas que comem no busão e ao terminarem se debruçam sobre você (sim, eu só sento na janela)e atiram sacos de pipoca, ou o que quer que seja, na rua. Já perdi a conta de quantas vezes chamei atenção das pessoas para esse fato. Adoro quando são crianças, pois acho que posso modificar a postura de um futuro cidadão. Algumas pessoas ficam chateadas, mas a maioria fica com vergonha mesmo.

Um das vezes que fiz isso, achei que fosse apanhar, e confesso que tive medo. O cara pegou um copo plástico que estava na calçada (que acabara de escapulir de sua mão) e jogou na rua, e detalhe: havia um lixeiro ao lado dele. Ele não precisava andar, era só esticar a mão e o copo estaria no lixeiro. Não me contive, toquei no seu ombro e falei:

— Que capacidade! O lixeiro do teu lado e tu jogou o copo no chão.

Ele olhou pra mim e com um sorrisinho na cara falou:

— Hein?!

Pra ter sorrido assim, talvez pensou que eu estivesse paquerando ele, pois quando eu repeti o que havia falado só não fui chamada de bonita. Todos os palavrões e xingamentos do mundo foram direcionados para mim, até minha mãe tadinha, que me ensinou a não jogar lixo na rua e a ser educada foi xingada. Continuei o meu rumo enquanto ele me xingava, e alguns segundos depois a criatura passou por mim de carro e me xingou ainda mais. Até foi “amigável”, sugeriu uma posição sexual, não sabe ele que isso é bom né?! Vai ver que é por isso essa grosseria toda né?!tadinho…mal amado.

O que me impressionou foi a raiva no olhar e nas palavras dessa criatura, e o que me deixa mais puta é que depois esse mesmo idiota viaja para algum país de “primeiro mundo” e enche a boca com orgulho pra falar “isso é que é país”, quando ele mesmo é o primeiro a não cuidar do seu.

Confesso que depois desse dia fiquei com receio de reclamar com as pessoas sobre o lixo, ou sobre qualquer outra postura que afete o meu espaço como cidadã. Pensando melhor, vi que também não sou tão inerte quanto à questão da corrupção, faço minhas obrigações, o problema é que muitas vezes não podemos cobrar dos outros ou fazer mais devido à postura de pessoas como aquela. O mundo está tão louco e eu ainda tenho amor a minha vida, porque ainda tenho uma esperança (utópica) que muita coisa pode mudar.

Música de hoje: Eu tô cansada dessa merda – Eddie

Livro: Não verás país nenhum – Ignácio Loyola de Brandão

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3 Respostas to “Liberdade Clandestina”

  1. Ana de Fátima Says:

    Oi Mari…Concordo com vc. Fico impressionada como as pessoas jogam lixo na rua.Inclusive nem querem saber em quem vai bater.Já vi voando latas de refrigerantes de dentro de ônibus.
    Bem, penso e exercito que não devemos nos acostumar com as coisas erradas como, meninos, meninas e idosos na rua, por exemplo.
    O que podemos fazer?! Além de tentar reverter a situação votando e elegendo pessoas sérias e comprometidas………Podemos ter atitudes que parecem pequenas mas são grandes e corajosas atitudes, como a sua.
    Claro,que a grande questão é que falta participação de fato da sociedade nas decisões que afetam a vida cotidiana. Temos que buscar esse espaços……

    Um beijo

  2. monica ramalho Says:

    ô se entendo você! bacanérrimo teu blog, viu? já linquei no ‘laranja’. beijos!

  3. Indico… « De bubuia na bubuia Says:

    […] relacionei a música “Eu tô cansado dessa merda” da banda Eddie à um post meu. Agora saiu o clipe, está muito bacana. Vale a pena […]

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